Análise Estética de Laranja Mecânica – cena I

A cena que será analisada a seguir é a primeira do filme Laranja Mecânica, de 1972, dirigido por Stanley Kubrick. A sequência possui exatamente um minuto e trinta e um segundos e é inserida logo após os créditos iniciais da película.

O filme conta a história de Alex Delarge, jovem de 15 que têm uma forma não ortodoxa de se divertir. Líder de sua própria gangue juvenil, Alex e seus três drugues (amigos) são adolescentes anárquicos, violentos e sádicos, que cometem roubos e estupros pela cidade. Porém, quando é submetido ao tratamento Ludovico, o mais novo recurso do Estado para o controle e diminuição da violência, é que Alex começa sua verdadeira transformação distopia.

O diretor Stanley Kubrick, conhecido pelo seu perfeccionismo estético, aplicou suas técnicas para a elaboração de uma narrativa revolucionária e chocante, baseada no livro homônimo de Anthony Burgess. Kubrick compôs sua impactante visão do futuro através de recursos visuais e musicais inovadores para criar uma verdadeira obra prima da sétima arte.

Kubrick e McDowell

A cena inicial que têm como objetivo apresentar o personagem principal e introduzir através deste os personagens secundários e outros elementos do roteiro, se passa em um bar no qual se serve leite com bebidas alcoólicas, chamado Leiteria Korova, nele está Alex e seus amigos, sentados bebendo moloko vellocett.

Close inicial do rosto de Alex


O cenário em que as personagens encontram-se, ou seja, a leiteria pode ser analisada como um ambiente conceitual e futurístico. Ele mixa a estrutura de um pub à psicodelia oriunda da década de setenta, com uma estética quase monocromática, contrastando fortemente com as cores quentes dos cabelos dos manequins. O conceitual deste espaço deve-se a forma das mesas e da decoração do local, que possuem formas de mulheres nuas em posições eróticas, com os cabelos e pelos pubianos coloridos, apoiadas sobre as mãos e os pés, com as pernas abertas e a vulva protuberante. O contraste é feito com a cor das paredes, que é preta, deixando o cenário com um ar sombrio, nesta parede encontra-se palavras como “moloko vellocett”, escrito em cor branca, o que seria justamente o cardápio do lugar.

Leiteria Korova

Todos os personagens relevantes para a trama estão usando roupa branca e bastante semelhante, como fosse um uniforme da gangue, composto por uma camisa de manga, calça, suspensório e suspensório escrotal, com chapéu e botinas pretas. Porém, cada vestimenta dos quatro drugues diferencia-se em alguns detalhes, por exemplo, o figurino de Alex é composto por um chapéu coco preto e ele usa cílios postiços. A mensagem que o figurinista quis passar neste caso, é que por serem adolescentes, suas roupas brancas lembram pureza e serenidade, o oposto do que esses jovens são, causando um maior impacto entre o ambiente hostil do bar e a personalidade dos personagens. O resultado disso é um grande choque no público. Já os cílios postiços de Alex lembram uma engrenagem, e fazem de forma direta uma referência ao livro que deu origem ao filme, no qual a ilustração original da capa possuía um crânio humano com uma engrenagem em volta de um de seus olhos. O chapéu usado por ele passa a mensagem de requinte e elegância de Alex, que mesmo sendo um delinquente juvenil aprecia musica clássica e o seu maior ídolo é Ludwig van Beethoven.

Capa do livro

A cena se passa de maneira progressiva e contínua, e em seus noventa e um segundos de duração aparece o personagem principal em primeiro plano, olhando fixamente para a câmera enquanto degusta um pouco de leite, em seguida, através de um traveling regressivo a lente da câmera abre para um plano geral, assim é introduzido os outros personagens e os elementos da narrativa, com uma sequência direta sem corte.

Nesta tomada a música possui ligação direta com o discurso do personagem, que é feito em primeira pessoa, porém essas falas são apresentadas como pensamentos de Alex, que é personagem e narrador da historia. De forma serena e resumida ele apresenta ao espectador ele, seus amigos e o local a onde estavam. Utiliza gírias nadsat, propriamente oriundas do livro para descrever o que estavam fazendo ali e o que esperavam para mais tarde, que era nada menos do que uma noite de “ultraviolência”. A música sombria, densa e até mesmo repetitiva envolve a cena com sua sonoridade e acompanha a progressão do discurso de Alex, criando um clima tenso e incomodo para o espectador. E assim acaba a primeira tomada de Laranja Mecânica.

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Sobre foradcontexto

Distraída. Tenho pavor de peixe, não gosto de gatos e meu beatle favorito é o John Lennon.
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